A velocidade entrou cedo na vida de Paulo Parri Worms, mas foi aos 12 anos que uma paixão de infância ganhou um novo significado. Fascinado desde pequeno por carros, corridas e pelos grandes nomes do automobilismo, o jovem piloto descobriu no kart uma possibilidade concreta de transformar esse interesse em um projeto de vida.
Dois anos depois, em sua estreia em uma competição do GRAKAR, no Kartódromo Granja Viana, veio a primeira grande confirmação: Paulo venceu e percebeu que poderia ir além.
Aos 15 anos, ele já acumula experiências e resultados expressivos em competições de kart no Brasil. Entre eles, está o terceiro lugar na seletiva para o Mundial realizada em Porto Alegre, resultado conquistado após uma sequência de recuperação em um torneio de alto nível, que incluiu duas poles positions e uma vitória.
Por trás do piloto que busca velocidade e desempenho nas pistas existe também um adolescente que precisa conciliar escola, treinos, preparação física, viagens, alimentação e vida familiar. Nesta entrevista, Paulo fala sobre a descoberta do kart, as referências que o inspiram, a preferência por corridas na chuva, os desafios financeiros do automobilismo, a importância da família, das equipes e dos patrocinadores e, principalmente, sobre o sonho de construir uma carreira no endurance e chegar um dia ao World Endurance Championship (WEC).
SP Jornal: Paulo, quando você percebeu que o kart não seria apenas uma brincadeira, mas poderia se transformar em uma carreira?
Paulo Parri: Desde pequeno eu sempre fui completamente fascinado por carros e velocidade. Cresci acompanhando a Fórmula 1, a Stock Car e cercado por brinquedos como Hot Wheels e os filmes do Relâmpago McQueen. Mas tudo mudou quando eu tinha 12 anos. Um grande amigo me convidou para correr em uma pista de kart indoor no aniversário dele e, naquele dia, toda aquela paixão de infância se transformou em algo real. Eu percebi na hora que era aquilo que eu queria para a minha vida. Confesso que fui apresentado um pouco ‘tarde’ ao kartismo em comparação com outros pilotos, mas o ditado está certo: antes tarde do que nunca!
Como começou essa paixão pelas pistas e qual foi o momento em que você pensou: “é isso que eu quero fazer”?
Essa paixão se materializou de vez em dezembro de 2024, quando fui convidado para participar da última etapa do GRAKAR (Grupo de Amigos do Kart), um campeonato amador sediado no Kartódromo Granja Viana (KGV). Para a surpresa de muita gente, eu já conquistei o primeiro lugar logo nessa estreia. O grid tinha pilotos de todas as idades e com níveis de experiência muito diferentes, então vencer ali foi a confirmação de que eu tinha potencial. Foi exatamente naquele pódio que eu pensei: “É isso que eu quero fazer”. A partir dali, o meu ano de 2025 começou de um jeito totalmente diferente.
Qual piloto de corrida é a sua referência e porquê?
Meu grande ídolo atual é Max Verstappen. Considero ele um piloto fora de série, muito ambicioso e extremamente disciplinado. E, para ser sincero, ele também tem a “cabeça quente” na pista — o que eu confesso que é bem parecido comigo (risos). Além dele, existem referências históricas e técnicas que eu faço questão de destacar e estudar, como o Ayrton Senna, o Michael Schumacher e o Kévin Estre, que é uma grande inspiração no endurance.
Você tem apenas 15 anos, mas já disputa competições importantes no Brasil. Como é conciliar a vida de adolescente com a rotina de um piloto de competição? Escola, treinos, viagens, preparação física, alimentação e as responsabilidades fora das pistas.
É uma rotina que exige muita disciplina, mas eu encaro tudo com muita responsabilidade. Este ano foquei nos principais campeonatos do Brasil, mas também participo de torneios menores, porque cada quilômetro de pista traz uma experiência muito significativa. A escola sempre foi e continua sendo a minha prioridade absoluta, embora em semanas de competição eu precise faltar para cumprir o cronograma de treinos e viagens. Fora das salas de aula e das pistas, a preparação é diária: frequento a academia todos os dias para aguentar o desgaste físico do kart e procuro manter uma alimentação saudável sempre que possível. Abrir mão de algumas coisas comuns da adolescência faz parte do processo para quem quer competir em alto nível.
Você vem conseguindo resultados importantes nos campeonatos brasileiros e paulistas e chegou ao terceiro lugar na seletiva para o Mundial. Qual dessas conquistas teve um significado especial para você? Por quê?
Sem dúvida nenhuma, a Seletiva para o Mundial realizada em Porto Alegre (RS), que aconteceu em abril deste ano, teve o significado mais especial. Foi um torneio de altíssimo nível, com pilotos muito experientes, muitos deles nativos da região e com títulos mundiais no currículo. Mesmo sendo a minha primeira vez na pista do Piquet Kart, consegui um desempenho incrível em um formato exaustivo de quatro corridas no mesmo dia, organizado pela KMKZY Sports. Na primeira prova, meu kart quebrou e terminei em último. Em vez de desanimar, virei o jogo: nas duas provas seguintes fiz duas poles positions e venci uma delas. Na grande final, larguei em P2 e cruzei a linha de chegada em P2. Terminei em 3° lugar na classificação geral e em 2° na final. Infelizmente, por conta daquela quebra inicial, o título e a vaga para o KWC (Kart World Championship) na Dinamarca escaparam por pouco, mas a resiliência que mostrei e os amigos que fiz em POA valeram ouro.
Existe uma característica sua que chama atenção: você gosta de correr na chuva e parece se sentir muito à vontade nessas condições. O que muda para um piloto quando a pista fica molhada? E por que você acredita que consegue ter um desempenho tão bom na chuva?
Sim, eu adoro correr na chuva, mesmo sabendo o quanto é mais difícil e desafiador. Eu acredito que a pista molhada iguala os equipamentos; o rendimento do motor deixa de ser o fator principal e o talento do piloto passa a fazer toda a diferença. É na chuva que o piloto se destaca de verdade. Um grande exemplo disso foi a última prova do NKR (National Kart Rental), em parceria com a KMKZY Sports, no Kartódromo de Joinville. Foi o maior temporal sob o qual já pilotei na vida. Choveu o dia inteiro a ponto da pista ficar alagada em alguns trechos, exigindo sensibilidade máxima no traçado e controle total do kart.
O que passa pela sua cabeça segundos antes de largar? Você entra na pista pensando em vencer, em fazer uma corrida inteligente, em buscar o pódio ou simplesmente em aproveitar aquele momento?
Segundos antes da largada, o foco é total. Primeiro, eu faço a minha oração para agradecer e pedir que o melhor aconteça na pista. Logo depois, minha mente vira uma chave: eu começo a desenhar todos os cenários possíveis para a largada, antecipando os obstáculos para já ter uma reação pronta para o que der e vier. Eu entro na pista pensando em fazer uma corrida inteligente e estratégica; a vitória e o pódio são consequências disso. Claro que eu aproveito cada segundo e me divirto pilotando, mas, quando a viseira abaixa, o objetivo é extrair o máximo do kart e entregar o meu melhor.
Quem é o Paulo fora do kart? Quais são seus outros interesses, como é sua relação com os amigos e com a família e o que as pessoas talvez não saibam sobre o piloto que veem nas pistas?
Fora das pistas, eu sou um cara tranquilo e que valoriza muito as conexões reais. Tenho facilidade para fazer amizades e um ciclo muito legal na escola, mas também sou alguém que gosta de ter os seus momentos de privacidade e tempo sozinho para recarregar as energias. Adoro passar o tempo com a minha família, viajar, pegar a estrada e estar perto de animais. Uma curiosidade que pouca gente sabe sobre mim é que, quando vou para o sítio dos meus avós, passo a maior parte do tempo dirigindo um buggy — veículo que meu avô me ensinou a pilotar quando eu tinha apenas 10 anos. Então, mesmo nas férias, a paixão pelo volante não fica para trás!
O automobilismo é um esporte que exige muito investimento. Como funciona hoje a estrutura necessária para você competir em alto nível? Quanto dependem desse projeto o piloto, a família, a equipe e os patrocinadores?
O kartismo, assim como todo o automobilismo, exige um investimento altíssimo para se competir em alto nível. Não basta ter talento, é preciso ter frequência de pista. Custos com treinos, equipamentos, pneus e viagens são os mais pesados. Esse projeto é um verdadeiro trabalho em equipe: depende da dedicação total do piloto, do suporte emocional e logístico da minha família, da excelência técnica da equipe mecânica e, claro, do combustível financeiro dos patrocinadores. Este ano, tenho parceiros incríveis que me ajudam com verba direta e serviços, mas a busca por novos investidores nunca para. No Brasil, temos a Lei de Incentivo ao Esporte, que é uma ferramenta federal fantástica e pode ajudar muito as empresas a apoiarem pilotos como eu através de renúncia fiscal.
Você já conta com alguns parceiros, inclusive empresas que ajudam financeiramente e outras que oferecem serviços. O que significa para você saber que existem pessoas e empresas que acreditam no seu futuro?
Para mim, significa muito. É uma parceria de extrema reciprocidade: eles acreditam no meu potencial nas pistas e eu acredito na marca deles fora delas. Hoje, tenho o orgulho de contar com o apoio de empresas de ramos totalmente diversos, como seguradora, advocacia, alimentação, casa de câmbio e dentista. Isso prova que o automobilismo se conecta com qualquer mercado. Tenho total confiança de que mais marcas vão aparecer para somar ao projeto e investir no esporte no Brasil, até porque o esporte é uma ferramenta incrível de transformação e saúde para qualquer indivíduo.
Para uma empresa ou profissional que esteja lendo esta entrevista e pensando em apoiar sua carreira, o que você gostaria de dizer? Que tipo de parceria pode fazer diferença para que você continue competindo e evoluindo?
Eu gostaria de dizer que apoiar a minha carreira não é apenas estampar um logotipo no meu macacão ou no kart; é investir em uma história de dedicação, foco e retorno de imagem. O automobilismo tem uma visibilidade incrível e atrai um público muito fiel. Qualquer tipo de parceria faz a diferença para mim hoje, aos 15 anos: desde o apoio financeiro direto para custear treinos e viagens neste ano de 2026 e próximos, até permutas de serviços que otimizem minha preparação, ou empresas que queiram se beneficiar da Lei de Incentivo ao Esporte. Eu encaro meus patrocinadores como parceiros de equipe: se eu acelero na pista, é para levar a marca deles junto comigo para o topo do pódio. Quem quiser conhecer nosso projeto, as portas estão super abertas para uma conversa e eu estou pronto para representar essas empresas com muita ética, disciplina e, claro, muita velocidade.
Olhando para os próximos anos, qual é o seu maior sonho? Você se imagina chegando ao automobilismo profissional, disputando categorias maiores e, quem sabe, levando o nome dos seus patrocinadores para as principais pistas do Brasil e do mundo?
Sim, com certeza. Eu sei que o mercado de pilotos amadores é enorme, mas o espaço para profissionais é muito restrito e disputado. Por isso, acredito muito que novos parceiros vão aparecer para somar ao projeto e me ajudar a construir esse caminho até a WEC (World Endurance Championship). Eu sempre gostei muito de campeonatos de endurance — que são as corridas de longa duração —, e esse é o meu grande foco e objetivo para o futuro. Quero levar comigo o Brasil e as marcas que acreditaram em mim desde o kart para as principais pistas do mundo.
Entrevista: Fernando Aires. Foto: Divulgação.
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