“Buraquinhos ou o vento é inimigo do picumã”, do Coletivo Carcaça de Poéticas Negras, mescla realismo fantástico e denúncia
Um menino negro, que mora na periferia, e narra sua trajetória desde o momento em que vai comprar pão na padaria, o encontro com um policial e sua corrida pelo mundo é o ponto de partida de “Buraquinhos ou o vento é inimigo do picumã”, segundo espetáculo da programação da Mostra de Dramaturgia em Pequenos Formatos Cênicos do Centro Cultural São Paulo, que estreou no dia 22 de junho. Com texto de Jhonny Salaberg, integrando o elenco ao lado de Ailton Barros e Clayton Nascimento, Naruna Costa dirige a montagem, que fica em cartaz até 15 de julho.
Narrativa em primeira pessoa de um menino negro nascido e criado em Guaianases, “Buraquinhos ou o vento é inimigo do picumã” apresenta a história de um jovem que vai à padaria no primeiro dia do ano e leva um “enquadro” de um policial. A partir daí o menino corre sem parar, o levando para uma maratona pelo mundo.
Ao longo do seu caminho, o menino – atingido por 111 tiros de arma de fogo do policial que o persegue, numa clara referência aos cinco jovens fuzilados em Costa Barros, no Subúrbio do Rio de Janeiro no final de 2015 com a mesma quantidade de tiros e também aos 111 mortos no massacre do Carandiru –, encontra várias personagens, que são arquétipos sociais que costuram os acontecimentos da história. Totalmente inserido na narrativa, o realismo fantástico do texto de Jhonny Salaberg mostra um menino com o corpo cheio de buracos, onde o real já não importa mais, pois ele precisa descobrir outras maneiras de sobreviver.
Os ingressos podem ser adquiridos na bilheteria do Centro Cultural São Paulo ou no site Ingresso Rápido.
Ferida aberta nas periferias
Convidada pelo Coletivo Carcaça de Poéticas Negras para dirigir o espetáculo, a atriz Naruna Costa conta que foi um grande desafio levar ao palco um texto tão literário e imagético. “Fizemos várias leituras e junto com o elenco fomos descobrindo as formas de encenação.”, diz a diretora.
Para ela, a peça é um jogo aberto, assim como o tema, que é uma ferida aberta nas periferias. “A encenação é pautada na presença dos atores em cena. Eles precisam estar vivos dentro e fora da cena”, acredita Naruna.
Segundo Jhonny Salaberg, o espetáculo é uma pesquisa em cima do genocídio e etnocentrismo da população negra. Além disso, a peça mergulha no universo do realismo fantástico, pautada na construção de um imaginário étnico-cênico-racial. “Em um tempo, em que aprendemos a naturalizar a barbárie, tragar o caos, vivendo em um moto-contínuo solitário e vertiginoso, insistir na sensibilidade do encontro com o outro e na empatia da arte para olhar para si é um instrumento de possibilidades”, pontua o dramaturgo.
Com oito cenas, dois músicos executam a trilha sonora de “Buraquinhos ou o vento é inimigo do picumã” ao vivo. O cenário e figurinos, de Eliseu Weide, usam como referência a cor do papel pardo dos sacos de pães. Para completar a cenografia, um playground infantil com brinquedos antigos e envelhecidos.
Para o dramaturgo, diante de um caos social é preciso reinventar a vida. “É preciso acreditar que se pode correr em cima dos fios de eletricidade, pular até as nuvens, escorregar pelos encanamentos embaixo do asfalto e até voar com asas remendadas. A personagem precisa descobrir dispositivos de sobrevivência para poder continuar correndo. Afinal, a fantasia invade a realidade derrubando todas as portas invisíveis pelo caminho. A ideia é falar de coisas pesadas de uma forma leve”, explica Jhonny.
Continuidade da mostra
Depois de “Buraquinhos ou o vento é inimigo do picumã”, a última montagem da quarta edição da Mostra de Dramaturgia em Pequenos Formatos Cênicosa estrear será Necropolítica, de Marcos Barbosa e direção de Aury Porto. Com Carol Badra, Luis Marmora, Mariano Mattos Martins e Tatiana Tomé, o espetáculo é um mosaico sombrio de uma sociedade em crise, mergulhada em dilemas que envolvem o surgimento de uma nova classe: os mortos. Atravessados pela disputa por recursos, por espaços e por representações, agora são eles que pautam os grandes debates em que se constroem, aos trancos e barrancos, entre a ética e a estética, uma possível nova política.
Para Kil Abreu, curador de teatro do Centro Cultural São Paulo, este quarto movimento da Mostra consolida o projeto. A ação levou ao palco até aqui nove autores e autoras selecionados nas edições anteriores. Além de algumas centenas de outros que enviaram seus textos para avaliação. “A edição atual ensaia mais deliberadamente as pontes entre estética e política. Nas peças de Ave Terrena e Jhonny Salaberg prevalecem as discussões sobre gênero, raça, classe e microfísica do poder. Já a quase anti-peça de Marcos Barbosa observa a sociabilidade em uma visada mais ampla. A montagem discute as formas atuais do ativismo agora travadas nas variações da polarização em que vivemos”, explica ele.
Serviço:
Espetáculo “Buraquinhos ou o vento é inimigo do picumã”
Data: Até 15 de julho
Horário: Sexta-feira e sábado, às 21 horas, e domingo, às 20 horas
Local: Centro Cultural São Paulo
Endereço: Rua Vergueiro, 1000 – Estação de metrô Vergueiro
Vendas: na bilheteria ou no site Ingresso Rápido
Valores: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia-entrada).
Reportagem: Da redação. Foto: João Luiz Silva.











